A unidade e o federalismo

Por Neto, militante da FAG

 “Todos nossos leitores, todos os que nos conhecem, sabem com quanta paixão queremos e defendemos a concórdia entre os trabalhadores subversivos: a frente única do proletariado contra a burguesia e contra o governo.”
Errico Malatesta, “Nós e os Socialistas”, Umanitá Nova, 1920.

No texto “As frentes, a unidade e os anarquistas” procuramos socializar algo da nossa opinião sobre a importância da unidade em um contexto de ofensiva dos de cima e resistência dos de baixo. Da mesma forma, dissemos os motivos pelos quais não participamos das frentes Povo sem Medo e Brasil Popular. Agora, queremos falar de alguns aspectos dessa unidade a que nos referimos anteriormente e aproveitaremos o ensejo da rearticulação do Bloco de Lutas pelo Transporte Público de Porto Alegre para exemplificar nossa argumentação.

 Que unidade mesmo?

Ao contrário de tantas outras cidades do país, Porto Alegre conta com um espaço de unidade para articular as lutas contra o aumento das passagens e para fazer a defesa de um transporte 100% público desde antes de 2013. Uma frente da qual participam quase toda a esquerda porto alegrense: anarquistas, trotskistas, autonomistas, leninistas e individualistas. Longe de evitar problemas de ordem ideológica ou mesmo programática, essa composição possibilitou amplificar as forças que cada um isoladamente não teria, impor na agenda política da cidade a pauta do transporte público, atravessar 2013 sem entregar as ruas a uma direita raivosa, protagonizar ações diretas importantes como a ocupação da Câmara de Vereadores e servir como lugar de significativa experiência política a mais de uma dezena de ativistas e de lutadores sociais.

Contudo, o Bloco é uma frente de partidos, organizações políticas, indivíduos, coletivos estudantis, etc., que não consegue se capilarizar no território geográfico da cidade, nas periferias e comunidades populares. A estrutura e dinâmica do Bloco de Lutas e seu funcionamento como um fórum suprapartidário não é funcional como espaço de auto-organização das classes oprimidas. Como uma grande “agrupação de tendência”, o Bloco cumpre seu papel dentro de certos limites. Entretanto, se queremos que as lutas reivindicativas sejam ensaios para uma luta muito maior e necessária por transformação social – e é isso que nós, anarquistas, queremos – com protagonismo popular e organização de base, devemos ir além.

 Unidade de base implica em organização de base!

Sendo assim, somos contrários à unidade com outros partidos e organizações políticas? Achamos que a nossa participação no Bloco de Lutas por mais de 2 anos responde a essa questão. Contudo, o critério que aplicamos na nossa atuação cotidiana fala em priorizar a unidade entre setores de base organizados e não entre partidos. Mas por “setores de base organizados” entendemos o quê? E onde fica a FAG nessa concepção de trabalho?

Quando nos referimos a “base organizada” queremos dizer setores das classes oprimidas socialmente organizadas, ou, o que dá no mesmo, grupos de trabalhadores, de moradores, de estudantes, de desempregados – na sua diversidade – organizados em suas entidades representativas ou em função de reivindicações específicas, como é o caso do direito a um transporte 100% público. É esse protagonismo e auto-organização de base que, para nós anarquistas, irá definir satisfatoriamente os rumos de um processo revolucionário de matriz socialista e libertária; além disso, são essas as condições – os embriões – do que chamamos de Poder Popular.

Mas como unir setores geograficamente e setorialmente dispersos? É o federalismo a resposta do anarquismo para combater ao mesmo tempo o centralismo de concepções autoritárias e a fragmentação autonomista que é contrária à coordenação e à articulação entre diferentes unidades relativamente autônomas. É o método da delegação que encarna, na prática, o federalismo que organiza de baixo pra cima e que possibilita ampla participação nos locais de estudo, trabalho e moradia ao passo que forma múltiplos centros para sua coordenação.

No entanto, não temos dúvidas sobre a insuficiência – do ponto de vista do combate ao capitalismo – da organização das classes oprimidas sob bases apenas reivindicativas ou para lutar por reformas. Também temos certeza da necessidade de uma Organização política ideológica, anarquista e de intenção revolucionária. Tanto é assim que não renunciamos ao papel ideológico e político que a FAG e outras Organizações podem cumprir no interior da auto-organização das classes oprimidas. Isso significa que somos “uma vanguarda esclarecida que tem o dever histórico de dirigir e educar as massas ignorantes”? Não! Nada tão alheio a nossa concepção!

Somos partidários da teoria das minorias ativas e das Organizações Políticas – de Partidos, no sentido que dava Errico Malatesta a essa palavra – enquanto pequenos motores que favorecem e contribuem para a auto-organização social dos diversos setores das classes oprimidas numa perspectiva de transformação social. Deixando bem claro que não estamos nos referindo a Partidos de massas eleitorais, mas agrupações ideológicas com unidade programática e estratégica. Como já escrevemos em outros materiais, estamos falando da coexistência, complementaridade e articulação de dois níveis: o político e o social.

Construir um Povo Forte!

O limite do Bloco de Lutas, assim como de qualquer fórum em que se articulem prioritariamente Organizações Político-Sociais será, assim, os limites de uma experiência em que não estão diretamente implicadas parcelas expressivas das classes oprimidas. Isso vale para os âmbitos sindicais, estudantis e populares de uma maneira geral. Enquanto o conjunto da esquerda não reorientar a maior parte de seus esforços para um trabalho de base consequente – e ao mesmo tempo correspondente a uma luta político-ideológica fora das eleições burguesas – para projetar e materializar organização própria e autônoma das classes oprimidas, não construiremos alternativas concretas.

Sem uma experiência própria de organização e mobilização, consciência alguma sentirá a necessidade de abrir caminhos a outra sociedade. Sem auto-organização das classes oprimidas, repetiremos velhas dominações travestidas de Socialismo, de ditaduras ditas proletárias, de Estados operários que dominam politicamente e reconstroem dominações de classe. Porque para construir um Povo Forte, e não em primeiro lugar um Partido Forte, precisamos mais do que agitação, propaganda e disputa de aparatos. Criar raízes de luta e organização popular, independentes e pela base, ainda é tarefa para muitas mãos!

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