FAU – 60 anos de luta pelo Socialismo e a Liberdade

ATO ANIVERSÁRIO

QUINTA 27 DE OUTUBRO 20 HS

TEATRO STELLA

MONTEVIDÉU – URUGUAI

DA REDAÇÃO. Por ocasião da proximidade das comemorações de 60 anos de vida militante desta Organização que tanto nos “hermana” e inspira, reproduzimos abaixo uma resenha histórica para nossos leitores. A FAG e a CAB formarão delegação brasileira para tomar parte neste ato dia 27. No fim de semana seguido Montevidéu sediará umas jornadas de debates libertários entre delegados de distintos lugares. 

A história da FAU se vincula com outra história: a do anarquismo no Uruguai que arranca já desde a década de 1870. É o anarquismo fundador da maioria dos primeiros sindicatos; sua imprensa é quem difunde as novas idéias socialistas e libertárias em nosso país; é fundador da primeira Federação operária; suas idéias e práticas revolucionárias deixam uma impronta na história do movimento popular onde alguns de seus traços perduram até nossos dias.

Precede a FAU esta história e o que há concretamente de expressão libertária na década de 50: presença em setores operários e estudantis. Fala disso a luta antifascista e terceirista no meio universitário, uma série de conflitos operários com incidência de ação direta e pouco mais adiante a luta dos grêmios solidários de 1951-52.

A FAU é fundada em outubro de 1956 e nela confluem militantes sindicais, de bairros, assim como setores juvenis e estudantis agrupados nas Juventudes Libertárias, também alguns militantes espanhóis refugiados ali.

A nova Organização, como intento de organizar politicamente os anarquistas uruguaios deve atuar em um país e em um continente que começa a se ver sacudido pela crise e pelo aprofundamento da luta popular, e onde a ingerência imperialista, especialmente dos Estados Unidos, se faz cada vez maior e enfrenta crescentes resistências. Está a recente instrumentação yanqui de golpe de estado contra os planos de reforma na Guatemala. São também os anos da “guerra fria”, da invasão da Hungria pelas tropas russas, da intervenção franco-anglo-israelense como resposta à nacionalização do Canal de Suéz e das triunfantes guerras de libertação contra o colonialismo na África e na Ásia.

A FAU se desenvolverá ancorada na tradição revolucionária bakuninista, nas posições organicistas que tivera Malatesta, um de seus portadores mais reconhecidos, nas experiências e epopéias da Revolução Espanhola, de certa influência classista do anarcosindicalismo e tomando a tradição dos métodos de ação direta. Ao mesmo tempo, a Organização e seus militantes são conscientes de que sua atividade deve se desenvolver em um continente e em um país com as características específicas do que começa a ser chamado Terceiro Mundo. A militância tem presente o momento histórico, o novo contexto em que deve desenvolver sua ação, a necessidade que isso exige de localizar os problemas deste tempo, com cabeça própria, para operar com conseqüência.

Vai estudando temas, desenvolvendo seu acionar, sorteando dificuldades, fazendo acertos e erros nessa fluída luta social que um momento histórico revolto coloca. Uma obsessão a empurra: pôr em cena uma proposta e uma ideologia que considera totalmente vigente. Virão dificuldades internas que serão rapidamente superadas e que não impedem a continuidade da estratégia libertária desenhada.

Para a burguesia um modelo de país entra em crise e se tentará a reacomodação suprimindo direitos e conquistas operárias e populares. A repressão se intensificará e será em tal conjuntura um instrumento principal da estrutura dominante para efetivar o modelo que lhe permita seguir adiante com seus brutais privilégios. Desde o poder um giro até a direita tenta avançar a fundo. Os enfrentamentos populares a regressão e repressão se fazem freqüentes.

Frente à situação que se vive a Organização acha necessária a adoção de formas organizativas que lhe permitam levar adiante as diversas atividades que encara: públicas algumas e também semi-clandestinas ou clandestinas outras.

Um Decreto do governo declara ilegal a FAU, junto a outras organizações, em fins de 1967. Isto não toma de surpresa a Organização e pode então continuar o conjunto de suas ações, incluso aumentar seu crescimento.

Manteve então uma atividade regular e em aumento sua incidência político-social até o momento mesmo da chegada da ditadura.

Desde 1964 para adiante sua coerência e eficácia resultou muito maior. Foi criadora e dinamizadora de frentes de trabalho que conseguiram presença e peso a nível nacional, fundamentalmente na capital. Participou ativamente na fundação da Convenção Nacional dos Trabalhadores (CNT). Coordenou internamente e com outras forças sua participação no importante Congresso do Povo. Fez a chamada para a criação da Tendência Combativa. Integrou o Coordenador, organismo com preferência de luta armada, com organizações como MLN, MIR e outros.

Participou, junto com outras forças políticas, em um diário de certa relevância: “Época”, que expressava a esquerda de tom combativo. A FAU jogou parte ativa na elaboração de um documento que permitia uma ação conjunta, em importantes zonas estratégicas, a estas forças que integravam o diário.

Sofreu diversos golpes, companheiros presos e torturados, a própria organização legalmente perseguida durante quase quatro anos.

Até 1971 a FAU realizou sua atividade desde uma situação de clandestinidade. Neste período alguns de seus locais clandestinos caíram e alguns de seus militantes tiveram que atuar totalmente na clandestinidade, pois apareciam publicamente requeridos. Por momentos teve mais da metade de sua Junta Federal detida em quartéis.

A FAU havia conseguido desenvolver formas organizativas e de atividade que lhe permitiram manter seu funcionamento, seja nos distintos sindicatos onde os militantes atuam, nos organismos de direção da CNT, no movimento estudantil, em tarefas políticas, de ação direta armada, na luta ideológica contra o reformismo e o colaboracionismo operário, fundamentalmente expresso pelo Partido Comunista. Consegue publicar e distribuir sua imprensa semanalmente durante todo o tempo de clandestinidade: “Cartas de FAU”.

Também em condições de clandestinidade realiza eventos internos consultivos e resolutivos, incluso de mudança em sua Junta Nacional.

De não menos importância é a discussão e acordos pontuais com outras forças revolucionárias; mantendo sua independência ideológica e política.

É de destacar que neste período a Organização tem um importante crescimento.

Em 1968, já na clandestinidade, depois de uma decisão orgânica que previamente realiza avaliações estratégicas, pela iniciativa de de seus militantes, distintos grupos operários e estudantis dão vida a ROE (Resistência Operário-Estudantil) que atuará com amplitude, mas também como frente externa e de massas da proscrita FAU. Na ROE atuam militantes da FAU com distintos graus de responsabilidade nos sindicatos tais como indústria da borracha, gráficos, bancários, do gás, porto, indústria metalúrgica, têxteis, indústria química, refinarias de petróleo, transporte, saneamento, indústria alimentícia, ferroviários, empregados da Universidade, etc. Os estudantes são fortes fundamentalmente no Instituto de Magistério, entre os estudantes do Ensino Secundário, mas débeis na Universidade onde só estão presentes em poucas Faculdades (Humanidades e Medicina).

O peso da Organização no movimento operário e popular reveste importância. Marca uma linha de trabalho combativo e questionador do sistema. Foi ponta do trabalho de Tendência que nucleará os partidários de formas de trabalho não burocráticas, participativas e mobilizadoras. Não descuidou da polêmica com o reformismo, fundamentando permanentemente o porquê de seu acionar político distinto.

Paralelamente a atividade de massas, em determinada altura, atuará a OPR (Organização Popular Revolucionária), aparato armado da FAU que levará adiante com bastante êxito uma série de ações (sabotagens, expropriações econômicas, seqüestros de dirigentes políticos e patronais particularmente odiados pelo povo, apojatura armada a greves e ocupações de fábricas, etc.). A FAU insere sua ação armada em uma ótica política e ideológica muito distinta da maioria dos movimentos de libertação latino americanos, em grande medida influenciados pelo castrismo cubano e os teóricos do “foco guerrilheiro”. O acionar da FAU através da OPR tem muito mais parentesco com o dos companheiros dos grupos armados espanhóis vinculados a FAI (Federação Anarquista Ibérica) das décadas de 20-30. Claro está que acusando recibo adequado do contexto histórico que deve enfrentar e da articulação global que devem ter suas distintas instâncias militantes.

Foi estabelecida para o aparato armado só autonomia tática, todos os operativos político-sociais são resolvidos pela instância política global. Estima-se que seu desenvolvimento e o tipo de violência que execute devem guardar relação com o desenvolvimento da luta global do movimento operário-popular no país.

Procura se evitar níveis de violência que fiquem fora de contexto e isolem. Ao mesmo tempo se tomam uma série de medidas de funcionamento para prever e com vistas a evitar deformações “militaristas”. Combater toda cultura de obediência.

O país sofre uma profunda crise econômica e política, a “classe política” não dá resposta aos problemas urgentes que a manutenção do sistema coloca. Há no país já instalada uma ditadura constitucional. O movimento operário-popular responde aos cortes de liberdades e direitos. Organizações de combate marcam certa presença. É todo um período de forte repressão e enfrentamentos sindicais e populares. Entra o Exército em cena e hegemoniza a repressão. Em diferentes lugares, também no Parlamento, há denúncias de brutais torturas nos quartéis. As chamadas “Forças Conjuntas” (Exército e polícia) somam a seu trabalho de repressão física um trabalho de tipo ideológico, tratam de difundir confusão e medo através de comunicados postos nos distintos meios de comunicação que utiliza.

Em dois ou três meses a repressão praticamente desmantela o MLN (Tupamaros).

Em um marco inseguro e de descenso das lutas, com eminente ameaça de ditadura, a Organização avalia a situação e considera necessário recuar parte de sua força. Há nesse momento mais de trinta companheiros em condições de clandestinidade. Os companheiros de OPR se contam entre os primeiros que a organização evacua. Eles se encarregarão no imediato, na Argentina, de conseguir os meios econômicos para uma luta contra a ditadura que se prevê longa. Estima-se que a Organização deva tomar as medidas pertinentes que permitam durar no tempo. “Durar fazendo, durar lutando” se dirá então.

Em Junho de 1973 com a implantação da ditadura militar, se completa o processo de tiranização do país em um continente marcado pela presença de ditaduras militares no Brasil, Chile, Bolívia, Paraguai, etc. Já nesse momento centenas de presos políticos povoam os cárceres do Uruguai, a maioria das organizações revolucionárias tem sido dizimadas. A FAU volta todos seus esforços na greve geral que durante quinze dias paralisará o país. Deve redobrar esforços já que a força majoritária, o PC, recua, nesse momento, grande parte de sua força militante e procura determinado diálogo com os militares. A greve geral sobrevive na memória dos trabalhadores uruguaios como exemplo de sua decisão de luta.

Nestas condições, a FAU ordena agora evacuar a maioria de seus militantes até Buenos Aires, onde já se encontram os “mais queimados”, parte da Junta Federal e os companheiros da OPR, com a intenção de iniciar dali as tarefas políticas que impõe a resistência contra a ditadura.

Em parte do ano 73 e durante 74 e 75 a Organização desenvolve um importante trabalho desde a Argentina. Apontando o trabalho no Uruguai, conseguindo os meios materiais necessários para sustentar uma longa resistência. Militantes no Uruguai e militantes no exílio enxergam a Organização como uma expectativa real. Começa nela nestes anos um processo até uma abertura política que dê lugar a muita militância que não procede do anarquismo. Um Congresso definirá uma posição que aponta a tal objetivo. De qualquer maneira se mantém uma estratégia de intenção revolucionária, antieleitoralista e de matriz libertária.

Mas a situação Argentina se deteriora rapidamente. Em setembro de 1976 os militares tomam o poder e instauram ali uma brutal e genocida ditadura. Encurralados pela repressão dos serviços especiais do exército argentino e do uruguaio, operando o Plano Condor, entorno de cinqüenta companheiros são assassinados e “desaparecidos”, logo de suportar indescritíveis torturas, outros tantos são condenados a longos anos de prisão. Dentro dos assassinados se encontram companheiros velhos de decisiva gravitação para o acionar do conjunto da organização, por exemplo, Gerardo Gatti, León Duarte, Alberto Mechoso. Companheiros de formação intelectual e emotiva anarquista. O grande golpe sofrido gera dispersão, confusão e sensação de derrota. Uma grande perda humana e militante que deixará profundas marcas nesta história. A FAU, levando em suas entranhas aquele período de luta e na melhor das recordações a aqueles companheiros caídos seguirá o caminho libertário até nossos dias.

Cai a ditadura e há anistia de presos políticos. A FAU se reorganiza em 1985. Com companheiros que tem estado lutando no país nos últimos anos da ditadura e que tem tido como referente primordial a FAU; com companheiros que saem da prisão depois de muitos anos e que tem mantido sua definição anarquista de sempre; com companheiros que chegam do exílio com a disposição de continuar sua militância libertária. Em Março de 1986 se realiza o 7º Congresso, primeiro nesta nova situação. Ao mesmo tempo em que analisa a nova conjuntura que lhe toca enfrentar se dá sua Carta Orgânica e Declaração de Princípios. Documentos todos que se articulam a esta nova realidade, envoltos em uma concepção de ruptura e de propósito socialista libertário.

Os modelos econômicos e sociais levados adiante pela ditadura, cujos desenhos fundamentais vêm de uma estrutura imperial de dominação, têm criado uma enorme pauperização dos setores populares e estendido à marginalidade, a exclusão. E também a ação se deverá agora se realizar em meio de uma esquerda cada vez mais institucionalizada, com menos confiança na luta, com altos componentes ideológicos de derrota, que centra a ação dentro dos parâmetros e mecanismos do sistema capitalista.

Neste marco de uma miséria que tem crescido no meio operário-popular existem novas expressões de descontentamento e urgentes reivindicações: lutas com os despejos, por terra para edificar, por trabalho, por manter fontes de trabalho, por melhoramento da atenção da saúde, por melhores condições no ensino. Os clássicos bairros operários foram transformados basicamente em ex-bairros operários e o desemprego ou o trabalho precário é o dominante. Os bairros, neste novo contexto habilitam um importante trabalho regional.

A FAU encara imediatamente a sua reorganização um trabalho no meio sindical, barrial e estudantil. Tudo isso sem descuidar sua tarefa interna de reconstrução e atualização de sua infra que tem sido dizimada no período ditatorial.

Apenas iniciada sua reorganização teve que enfrentar a repressão, três de seus militantes foram presos e processados. Uma campanha intensa e sustentada foi a resposta imediata, campanha que contou com a solidariedade de organizações libertárias internacionais. Esta luta foi fator de primeira ordem para conseguir a liberdade dos companheiros.

Daí para frente a Organização tem tratado de estar participando ou apoiando as diversas lutas populares: operárias, por moradia, por saúde, por trabalho, por educação, em defesa dos Direitos Humanos, contra a desocupação de fábricas, contra diversas repressões. Junto a população nas importantes mobilizações contra as privatizações que enfrentava o modelo neoliberal.

No orgânico a estrutura federal funcionou adequadamente para potencializar as distintas instâncias de ação. Os Congressos foram avaliando o trabalho militante e ajustando a estratégia aos tempos que transcorrem. O Federal e o Secretariado foram os encarregados de aplicar as resoluções gerais ao terreno concreto, fluído, das conjunturas que iam se apresentando.

A propaganda esteve a cargo de distintas expressões: revista, periódico, murais, alto-falante, manifestos e volantes. Quase tudo editado na imprensa da FAU. Os atos públicos, primeiro em teatros e depois na rua tem contado até o momento com boa concorrência. A militância da FAU nos Ateneus de bairro, com atividade regular, intensifica seu acionar na oportunidade dos 1º de Maio, convocando nos últimos tempos uma coordenação que nucleia milhares de pessoas em uma manifestação operária histórica que recorre vários kilômetros, a Coluna Cerro-Teja.

Tem resolvido, e tem feito esforços em tal sentido, de trabalhar em prol de uma coordenação regional libertária. A CALA foi uma expressão desta inquietude. Os resultados não tem sido do todo efetivo até o presente, mas as coordenações realizadas têm lançado alguns resultados favoráveis e ainda hoje está viva esta idéia em quem participou na CALA. Há 20 anos se mantém uma coordenação regular e orgânica com a Federação Anarquista Gaúcha e nos últimos anos com a Coordenação Anarquista Brasileira.

As relações internacionais com o campo libertário são fraternais, ao tempo que se tem priorizado aquelas que os anos e os feitos têm ido marcando como mais afim política e socialmente.

Em distintas instâncias orgânicas e especialmente em Congressos tem se analisado categorias conceituais e fenômenos relacionados com a etapa e a conjuntura. Procurando nos munir daquelas ferramentas teóricas que dão maiores possibilidades de acerto a nossa ação. Com a certeza em nosso propósito socialista e libertário, com acertos e erros, temos atravessado todo um tempo. Um tempo de luta com um ideal na vista. Muitos queridos companheiros foram torturados, presos, assassinados e “desaparecidos” e são eles um elemento permanente na memória e ânimo da Organização. Temos perdido faz pouco outros velhos e queridos companheiros que estiveram toda sua vida política na FAU, tais, por exemplo, os casos de “Perro” Pérez, “Santa” Romero, Roberto Larrasq, Carlos Molina, Andrés Medina, também eles são um exemplo e referente permanente.

Uma militância jovem tem chegado a velha organização e levantado sua bandeira vermelha e negra e seu espírito de peleia, ela vai assegurando sua continuidade histórica. Gente distinta, distintos tempos, os mesmos sonhos.

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