CARTA DE OPINIÃO NOV 2016.

PEDRA SOBRE PEDRA. CONSTRUIR UMA BARRICADA NO MEIO DA “PONTE PARA O FUTURO”. O que podemos aprender com a farsa político-judicial que tirou o PT do trono deve valer muito nessa hora. Já dissemos o que pensamos do caso e para os desavisados repetimos sumariamente: o arranjo da Lava Jato com a grande mídia, combinada com a crise social produziram discursos no cotidiano que fizeram o cenário perfeito para a ação dos vigaristas. Mas nossa tese geral é que O PT FOI SEU PRÓPRIO COVEIRO. Foi progressivamente integrado na estrutura dominante durante os últimos 30 anos e bateu no teto como um partido dobrado pela política do ajuste fiscal e sócio da corrupção sistêmica. A escalada no governo e nas repartições burocráticas da institucionalidade levou pra dentro do movimento sindical e popular todo cretinismo político burguês. Fez simulação de parlamentarismo no interior das organizações de classe. Reproduziu os valores e as ambições que são ideologia corrente dessas instituições.

O que mais uma vez nos certifica o presente histórico da política brasileira é que o reformismo chega quando muito no governo pelas eleições. Para tanto tem que se adaptar as estruturas do poder ou sofrer implacavelmente a reação conservadora do Estado. Na primeira opção deixa de ser reformista e atua na margem curta que sobra do pacto com as classes dominantes, quando tem conjuntura pra isso. Na segunda, nem sequer governa. O revés que carrega no colo essa concepção, que o PT deixa bem registrado agora, é que para inspirar confiança no sistema de poder rifa a independência de classe, ou seja, se credencia a gestor com a promessa de desmobilização das forças populares. Cedo ou tarde, acaba montando a cama pra reação mais atroz se deitar.

Ainda há quem faça conclusão fácil de que faltou o programa e o partido certo da esquerda pra mudar a sorte dessa aventura. O velho desejo reformista de fazer um arranjo eleitoral que na prática conserva os mesmos “meios” que conduziram esse fracasso. Um discurso no teórico-político que não consegue se libertar da tentação da “varinha mágica” das direções, que faz uma simplificação letal quando o assunto é o poder. Aquelas noções do poder como uma máquina neutra figurada pelo Estado que pode ser usada ao gosto dos pilotos de turno.

Reação neoliberal, PEC do fim do mundo e ocupações

As eleições municipais nos indicam um triunfo relativo do discurso liberal-conservador que monta nas ideias da gestão técnica e da meritocracia como uma zona insuspeita, que aparentemente toma um lugar de fala longe da área manchada da política tradicional. Mas só aparentemente. A política miserável do ajuste vem casada com a repressão sobre a pobreza e o protesto pra disciplinar a produção da cidade privatizada. A crise do PT e a ofensiva reacionária que se encorajou com sua queda explica muito. É forçoso admitir um valor ambivalente para a rejeição eleitoral sinalizada pelo expressivo número de abstenções, votos nulos e brancos. Leva dentro o mal estar e a saturação com a fraude democrática burguesa, mas também carrega um ressentimento anti-política ao sabor dos ventos, que fica no limiar do encanto com promessas mágicas de tipo autoritária.

A PEC 241 aprovada em dois turnos na Câmara de deputados agora vai pro senado como PEC 55. A MP da reforma do ensino médio foi incorporada na LDB. Pela educação se registram os movimentos mais fortes de resistência. Mais de 1 mil escolas foram ocupadas no país com mais da metade no estado do Paraná. Nessa onda juntaram-se também Institutos Federais e Universidades país afora. A tática das ocupações reativaram, pelo menos no setor público, uma dinâmica de lutas pela base que afrontam a burocracia, ao mesmo tempo que abrem passagem pruma nova cultura política pela cara e a coragem sobretudo da juventude. No RS a luta dessa vez é mais enérgica pela mão dos estudantes do ensino superior com dezenas de cursos ocupados na universidade da capital e interior

Está evidente que a juventude ganhou protagonismo nos últimos anos e que na onda de lutas que temos na cena social-política o movimento estudantil tem mais gravitação. Mas não podemos deixar de reparar que nessa foto do momento nos falta o movimento dos trabalhadores e dos setores populares historicamente excluídos da torta. Assim, se pela tática podemos falar de reforço e ampliação das ocupações como medida imediata, pela estratégia não podemos deixar de atuar e sintonizar também com as dinâmicas sociais que são características de outras frentes de luta. Levar no que fazemos a noção de frente das classes oprimidas. Ter uma política bem resolvida para agrupar forças como tendência combativa e calçar o passo na hora que vem o cansaço ou a exaustação de uma medida de luta.

Todas as frentes de luta chamam pra resistência.

O Supremo Tribunal Federal deu parecer favorável na quinta (27/10) à regra que corta o ponto dos trabalhadores em greve do setor publico. A bola da vez anunciada pras próximas semanas é o julgamento das terceirizações de atividades-fim. A reforma trabalhista avança a golpes de toga pela mão do judiciário. E o movimento sindical vem amargando a duras penas o saldo negativo de todo um período amarrado na institucionalidade, fazendo correia de transmissão dos governos de colaboração petistas. Um plano de ação não deve ser manobra retórica de quem se acostumou a negociar nas costas dos peões, do alto dos aparelhos sindicais. De recuo em recuo, conciliação a conciliação, não tem salto mágico pruma greve geral. O sindicalismo classista tem que se reinventar nos locais de trabalho e não esquecer os setores precários da classe trabalhadora, pra poder encontrar forças reais pra lutar e vencer a exploração capitalista.

Já sabemos que articulado a situação nacional desatada pós-impeachment o elemento jurídico-repressivo vem pesado. Temos o caso emblemático do capitão do exército infiltrado na pequena formação black block de São Paulo horas antes de um ato. Mais tarde foi apurada sua ligação com um militar reformado que atuou no DOI-CODI. O assédio a professores para delatar estudantes por ordens expressas da alta burocracia do ministério da educação e secretarias estaduais. Validação pela vara de infância e da juventude do DF de técnicas de tortura para desocupar as escolas com corte de água, luz, entrada de alimentos, emissões sonoras para impedir o sono. A escola de formação Florestan Fernandes foi tomada de assalto por forças da Garra no interior de São Paulo, entre tiros, golpes e prisões.

O governo Temer é governo de choque de uma formação especial do poder político que vai configurando um tipo de Estado policialesco autorizado pelas medidas de exceção do judiciário. Sempre é bom repetir: nas favelas, subúrbios pobres e para a população negra a regra geral é o governo pela repressão, a política da morte e da cadeia. A pobreza e o racismo produzem o bandido que ameaça a paz dos ajustados e ativam as redes de controle sobre a vida social. O que a situação nacional vem caracterizando é uma ofensiva da restrição de direitos que vai mais longe. As medidas de exceção como recurso da luta de poder do Estado e as classes dominantes contra toda resistência.

Não se intimidar e abrir caminho pela independência de classe.

O caminho fácil e rápido não faz atalho pruma saída que seja obra que comece de baixo, com protagonismo popular efetivo. Com muita modéstia, nós formamos parte de um setor das lutas sociais e políticas que apontam uma concepção de ruptura que não ignora os limites e possibilidades da etapa de resistência que atravessamos. Que não enxerga alucinada a insurreição na primeira esquina, mas tampouco declina sua vontade de mudança radical frente a angústia, a descrença e o individualismo que narram nosso dia-a-dia.

O que podemos e devemos marcar agora e sempre é um espírito de luta e solidariedade irredutível, encarnado nas práticas sociais que fortalecem o movimento popular. A ação direta como fator de luta de classe contra o capitalismo e todos suas formas de opressão. A mais ampla participação popular como princípio de ação política de combate aos usurpadores burocráticos das organizações de base. Anima essa postura, uma estratégia de trabalho em médio e longo prazo de construção de poder popular. Uma frente de classes oprimidas com a capacidade política de enfrentar com seus organismos de democracia de base e federalismo esse degradante e opressivo mundo burguês.

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