Reestruturação nos bancos públicos: a armadilha neoliberal por trás do acordo bianual

De Bancários da Resistência Popular Sindical

Não deu outra. Mal secou a tinta da assinatura no Acordo Coletivo firmado para 2016 e 2017 entre banqueiros e bancários e já começaram os ataques aos trabalhadores. Sob a alcunha de “reestruturação” e justificada por cifras enormes a título de “economia”, o Banco do Brasil apresentou no dia 20/11 um conjunto de medidas que acarretará no fechamento de 402 agências por todo o país, além de um Plano de Demissão Voluntária (PDA) que estima o desligamento de até 18 mil funcionários. Seguindo nessa mesma esteira, a Caixa Econômica Federal e o Banrisul já anunciaram também o possível fechamento de agências consideradas “deficitárias”. Não resta dúvida que essas são ações articuladas e orquestradas de maneira rasteira pelos “operadores” do sistema financeiro em acordo com as políticas neoliberais de desmonte do serviço público e dos parcos direitos econômicos e sociais conquistados a duras penas pela classe trabalhadora após a Constituinte de 1988.

Antes de tudo, há que se desconstruir a falácia dos banqueiros acerca da almejada “eficiência” das instituições. Baseando-se no aumento das operações bancárias efetuadas por meio dos canais online, os diretores dos referidos bancos defendem o fechamento de agências de modo a diminuir os custos operacionais e assim priorizarem os investimentos em tecnologia. Ora, uma vez que apenas 54,9% dos brasileiros têm acesso à internet em casa (segundo dados do IBGE), percebe-se aí nitidamente um recorte econômico-social, visando à exclusão dos mais pobres ao acesso dos serviços bancários. O que vai à contramão de uma das principais razões de existirem bancos públicos: a disponibilidade desses serviços em lugares onde as instituições privadas não têm interesse em atuar justamente por não enxergarem lucros em potencial.

Mas até aí nada de novo. Ao abrirem seu capital, as instituições bancárias passam a funcionar sob a lógica do privado, fazendo uso de recursos públicos para gerar dividendos aos seus acionistas, esquecendo-se assim da sua verdadeira razão de existir. E tudo isso sob a tutela do Estado, que faz uso destas instituições como moeda de troca de acordo com os interesses de cada governo de turno que está na direção da máquina.

Por outro lado, fica a pergunta: o que acontecerá com os trabalhadores dessas agências que serão fechadas? A resposta dos banqueiros é rápida: o PDV. Mas se nos debruçarmos sobre os mecanismos utilizados para se convencer os funcionários a aderirem ao plano, facilmente perceberemos as contradições. Só entre as funções de gerente geral e gerente de negócios, o Banco do Brasil planeja diminuir cerca de duas mil vagas. No total, aproximadamente 8.000 funções comissionadas deixarão de existir. E isso sem dar garantias de que quem hoje exerce a função e não deseja se aposentar continuará recebendo o mesmo salário, sem redução pela perda da mesma. Ainda, como forma de coagir os funcionários que se enquadram no plano, estes mesmos funcionários podem ser remanejados para agências distantes ou onde não tenham interesse em ir. Ou seja, em busca de números que satisfaçam poucos engravatados, o Banco do Brasil (e a seguir, Caixa e Banrisul também) desestrutura a vida de milhares de trabalhadores.

Isso para não entrarmos no mérito de outros ataques que a categoria vem sofrendo nestes últimos tempos. Como, por exemplo, o novo entendimento do TST acerca do cálculo da jornada extraordinária, reduzindo o valor da hora extra do bancário em 20%. Ou então os saques aos fundos de previdência complementar dos bancos públicos, em que os recursos angariados com as contribuições dos trabalhadores são aplicados em investimentos de alto risco (por meio de canetaços de diretores mais comprometidos com os próprios interesses do que com a saúde financeira das fundações), perdendo-se assim em operações que quase sempre só retornam prejuízos. Entretanto, tais assuntos são demasiadamente complexos, e por isso mesmo são merecedores de maior atenção em outro momento mais oportuno.

O que facilmente se depreende disso é que tivemos nosso poder de mobilização rifado às custas de um acordo bianual, sendo hoje golpeados em diversas frentes e não sendo capazes de revidar a altura.

Qual a alternativa que os sindicatos hoje apresentam?

Diante dessa ofensiva aos trabalhadores bancários, as direções dos sindicatos da categoria nada mais fazem além de emitir notas de repúdio e pregarem discursos aos seus próprios pares, em uma postura que evidencia a ordem de prioridades, onde a construção de suas correntes e o interesse de seus partidos vem à frente dos interesses da categoria. Ainda, com o país em efervescência na luta contra a PEC 55/241, é assustadora a inércia desses sindicatos, sequer promovendo o debate ou convocando a categoria para participar das ações promovidas. Essa inércia é o lastro ideológico que anos de aparelhamento e alinhamento do Sindicato a interesses de partidos e de governos deixaram para a categoria. A independência e solidariedade de classe, o apoio mútuo, a ação direta, são valores que foram gradativamente perdendo o seu sentido prático e ideológico perante as/os trabalhadoras/es, por serem usados – quando muito – em discursos vazios que não se relacionam com a prática desenvolvida. O distanciamento entre discurso e prática acaba desgastando e retirando o valor histórico e simbólico de tais conceitos, produzindo uma cultura acomodada e individualista, pouco ou nada combativa e/ou comprometida com o conjunto da classe trabalhadora.

Por óbvio, tal falta de ação por parte das direções segue a mesma lógica das negociações durante a greve: chamar para si o protagonismo do movimento sindicalista de modo a garantir “os rumos do movimento” e afastar qualquer forma de participação das bases que possa fazer transbordar a revolta que é tão bem contida pelas burocracias sindicais. Nos chama a atenção que os Sindicatos mantêm um silêncio sepulcral em relação a conjuntura do país, enquanto as Centrais Sindicais a que são filiados bradam em carros de som pela necessidade de “conscientização da classe trabalhadora”. Essa é uma fórmula que não fecha!

Para nós essa é uma postura inadmissível, um erro crasso de estratégia, uma vez que as ofensivas neoliberais não cessam e a cada dia ampliam o desmonte e a retirada de direitos, deitando e rolando por cima das organizações sindicais que parecem atônitas frente aos ataques.

Caminhos a se seguir

Já está mais do que evidente que a saída frente a essa onda de retrocessos não virá por meio de um salvador, um novo messias. O caminho a ser percorrido passa pela retomada dos valores caros à classe trabalhadora, como a atuação política nos locais de trabalho e nos espaços políticos do Sindicato e da sociedade, tais como Associações, Fóruns, Conselhos, Manifestações, Marchas, Atos, etc., de modo a produzir dinâmica e cultura de luta, bem como identidade de classe. Tais ações são um caminho inevitável para construir organização coletiva e para superar o burocratismo sindical e re-colocar os/as trabalhadores/as no protagonismo do seu destino. Dialogar com os colegas, fortalecer o sentimento de pertencimento à classe explorada, organizar-se enquanto trabalhadoras e trabalhadores, romper com o individualismo que isola e imobiliza, cerrar o punho e fazer frente aos desmandos que os de cima tentam nos empurrar.

PELA GARANTIA DOS DIREITOS CONQUISTADOS E CONTRA OS CORTES E AJUSTES NEOLIBERAIS!

POR UM SINDICATO COMPROMETIDO COM A CATEGORIA E COM AS LUTAS DA CLASSE!

É COM RESISTÊNCIA, LUTA E ORGANIZAÇÃO QUE COMBATEMOS A OPRESSÃO!

LUTAR, CRIAR, PODER POPULAR!!!

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