Reflexões sobre trabalho de base de matriz libertária

Antônio Ade, militante da FAG

A esquerda brasileira vive uma crise de mobilização que vem de décadas. Isso fica evidente frente ao cenário de ajuste, rearranjo conservador e de retirada de direitos no Brasil pré e pós-golpe. Encontramo-nos desarmados frente a tantos ataques.

Mesmo com boas mobilizações recentes, possibilitadas em grande medida pelas novas mídias e redes sociais, esse fracasso constante em mobilizar amplos setores das classes oprimidas ficou claro no pós 2013 pelo caráter volátil e pulverizado dos conflitos. Mesmo que na época algumas mobilizações tenham logrado um relativo grau de radicalidade, muito raramente se encontraram umas com as outras. Um claro sinal de fragmentação.

A intenção deste texto, produzido a partir de modestos esforços pessoais no interior de uma trama coletiva e militante, é fazer alguns apontamentos destinados ao campo libertário radicado na luta de classes sobre a necessidade de um amplo e viçoso trabalho social. Mais que isso, talvez por que a necessidade deste trabalho é bastante óbvia, o objetivo é falar sobre o que consiste, quando, onde, como iniciar e fazer progredir trabalho de base de matriz libertária.

Por esquerda, entendemos o trabalho de base como o esforço exitoso de mobilizar povo, as classes oprimidas, em instâncias organizativas regulares para a defesa de seus interesses, para defender direitos garantidos, conquistar novos, tendo como horizonte a superação política e econômica da classe dominante.

Garantir o caráter libertário é para nós imprescindível, afinal não queremos repetir esquemas trágicos que buscam reunir forças e canalizar a esperança dos oprimidos para o trote eleitoral, caminho que a história demonstrou mais de uma vez ser um caminho travado. Ou o trabalho quase mais trágico ainda que busca imobilizar a base, retirando seu caráter criativo e autodeterminado típico das classes oprimidas para formar uma massa monolítica, encurralada e refém de manobras impostas pelo centralismo de direções vanguardistas e autoritárias que mesmo querendo a superação das classes dominantes querem fazê-lo no marco da recriação de um estado “popular” centralizado.

O nosso caminho é outro. Nosso papel é de juntar o povo, contribuir com ferramentas para sua luta, potencializá-lo. Se organizar no interior de bases populares e defender um movimento consciente, com ação direta da base rumo a seus objetivos imediatos. E por fim, pela solidariedade de classe criar, fortalecer e unificar instâncias de base, federar as lutas rumo a um destino comum.  Fortalecendo a participação ativa, ampliando o nível de responsabilidade do sujeito frente ao coletivo, este é o trabalho de base que tem urgência em ser feito.

Enquanto conjunto do campo libertário e a partir de nosso marco teórico nós orientamos essa tarefa para todas as frentes sociais dos oprimidos: trabalhadores e trabalhadoras urbanas e rurais, moradores da periferia, negros e negras, lgbtts, sem-tetos, estudantes, juventude pobre, etc. Mesmo que outras variantes teóricas das lutas de classes concluam para a existência de um sujeito revolucionário dado a priori pelas contradições econômicas, para nós esse tipo de conclusão é  puro idealismo. Para nós esse sujeito revolucionário não será fabricado pelo capitalismo. Ele tem que ser forjado nos conflitos existentes pelas mais variadas demandas populares, lutando contra todas as formas de dominação, exploração econômica, dominação racial e de gênero, com o exercício da solidariedade permanente entre as lutas que vem de baixo.

Cada sujeito social vive rotinas cheias de dramas, de sonhos e esperanças. É impossível se organizar de igual para igual junto a determinado sujeito social sem viver suas dores e frustrações. E mais impossível é imaginar que a ideologia libertária se materializará nesse sujeito se não se atuar junto a ele no dia-a-dia.

Não advogamos aqui pelo entrismo de gente que vem de outras parcelas privilegiadas no interior das lutas das camadas mais fodidas. Mas sim pela atuação a partir do que se tem. Ou seja, quem vive uma rotina de exploração ou sofre com determinada opressão tem ou deveria ter o dever de militar sua própria realidade de modo a se organizar com mais gente e tentar mudar as relações de poder. Não existe facilidade nenhuma nisso. Como dizem, a paciência também é um ato revolucionário. Saber mediar o que queremos como objetivo final com o que podemos fazer aqui e agora rumo a esse objetivo, é fundamental. Trata-se de nunca se isolar, respeitando os tempos dos e das companheiras de base sabendo a hora certa pra cobrar de forma oportuna responsabilidades e coerências e obviamente estar preparado e aberto para a cobrança que venha pelo caminho inverso.

É importante o que diz o ditado popular: “uma andorinha só não faz verão”. Ninguém por mais pau-ferro que seja faz trabalho de base sozinho. É preciso atuar com mais gente, entenda-se é preciso estar organizado com mais gente. Contar com outros que militam o mesmo projeto garante que se tenha um calço, um ponto de apoio, ou recuo, com o qual se pode se contar em momentos difíceis. Além do sempre necessário debate, e apontamento coletivo sobre cenário, etapas, correlações de forças e como agir diante delas.

Como dito anteriormente pra fazer este trabalho crucial para garantir horizontes de transformações sociais, é preciso que se viva com profundidade o cotidiano de quem com quem gostaríamos de estar mobilizados. Quanto mais familiarizado com hábitos, costumes das classes oprimidas mais fácil a tarefa deste em entender e se mobilizar junto aos demais.

Sempre existirá a demanda incontornável de formar politicamente os companheiros e companheiras mais ativas que surgem ao longo de um trabalho social que desenvolvemos. Formar teoricamente, aumentando a capacidade de análise da realidade que se vive e se atua é um dever. Porém formar politicamente não garante a incorporação de ideologia de mudança. Como sabemos essa não é exatamente formada por escolhas racionais, mas sim tem muito conteúdo sensível que se transmitem a partir das praticas, exercício permanente então de autonomia, solidariedade e iniciativa frente aos processos. Nossas convicções libertárias não precisam de modo algum ser escondidas, mas sim debatidas de igual pra igual, sem nunca colocar elas acima do movimento e suas pautas. Aqui é preciso voltar ao inicio, pra deixar nítido: o centro de nosso trabalho nunca será de fazer propaganda de nossa ideologia, para esta existem outros dispositivos e lugares. O objetivo central é aumentar o nível de enfrentamento nas lutas por direitos e por uma nova sociedade, empoderando os sujeitos organizados e suas respectivas organizações de base. Juntar essas organizações pela solidariedade de classe e apontar na direção da ruptura com o sistema de dominação existente.

Nosso objetivo tem que ser bastante claro: trabalho de base para criar Poder Popular. Diferente do que se entende por trabalho de base em outras correntes, que buscam fazer trabalho doutrinário e produzir instâncias de base apenas como local de recrutamento para sua organização política. Criar Poder Popular quer dizer pôr-se junto aos oprimidos em movimento pra ir se impondo na luta de classes exercitando autonomia, ação direta, autogestão e federalismo.

Vamos que é tarefa urgente.

Foto: Barricada em Barcelona, maio de 1937

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