Reflexões sobre trabalho de base: fomentar o desenvolvimento de agrupações de tendência

Por Antonio Ade, militante da FAG

Desde os anos setenta, graças ao esforço militante de companheiros da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e da Resistência Operária Estudantil (ROE), o campo libertário recebeu uma valiosa contribuição para dinamizar a mobilização no nível de massas, seja no interior das categorias, dos bairros, dos locais de estudo e nos movimentos populares. Essa contribuição, da qual falaremos aqui, é a ferramenta conhecida como Agrupação de Tendência Combativa. Trata-se de um organismo de ação, operativo e com uma organicidade e recursos próprios. É a reunião de um grupo de elaboração e de ação, com objetivos e perspectivas de médio e longo prazo, com princípios de atuação e com um método e um estilo de fazer a luta cotidiana com a finalidade de potencializar gradualmente as mobilizações de base. Na fonte: “Por agrupações entendemos organismos estáveis, estruturados internamente, com meios próprios de atuar, que desenvolvam uma ação permanente…” Cartas de FAU 1970.

Nosso interesse com esse texto é ajudar a refletir, a discutir e a pensar a expansão, a massificação e também um ferramental de táticas para um Agrupação de Tendência que já esteja minimamente estruturado, com divisão de responsabilidades, com definições para a sua atuação e com acordos sobre suas intenções básicas. Por exemplo: o de enraizar-se e impulsionar a luta combativa com ação direta e autogestão na periferia x, na categoria y, no movimento z, etc. Isso por que devido as coisas como estão no Brasil de agora, tem muita gente querendo se envolver, promover a ação direta, construir luta e arrancar uma vida melhor. Algumas décadas de farsa eleitoral e a atual crise econômica possibilitaram uma ascensão do tipo protofascista que põe em risco a vida de maiorias e isso só se reverte com o aprofundamento da luta popular. Muita gente já entendeu isso e a destruição dos direitos coletivos que já vinha acontecendo desde o golpe jurídico-parlamentar já tinha empurrado muitos à luta apesar da repressão crescente. Hoje em dia não está difícil reunir companheiros e companheiras com vontade de lutar com métodos e objetivos próximos aos nossos, nos mais variados espaços: na categoria sindical, no movimento estudantil, nos bairros, em movimentos por moradia, em defesa de transporte público, etc.

Como nos recomendam os velhos militantes, uma agrupação de tendência não precisa ter todos os detalhes de um programa político definidos, isso limitaria a participação. Uma agrupação de tendência não é um partido político. Para uma agrupação persistir no tempo, criar uma cultura de luta e mobilização em um território, no interior de uma categoria e conquistar alguma hegemonia, é necessário defender com unhas e dentes, frente aos inimigos da categoria, o direito da base se organizar para defender seus interesses mais imediatos: salário, previdência, saúde, moradia, etc.; e alimentar pela solidariedade com outros setores em luta uma perspectiva estratégica de transformação social em longo prazo.

As ferramentas, os dispositivos a usar para aumentar a participação na Agrupação e, conseqüentemente, ampliar a participação em uma categoria são vastos, mas devem ser usados de maneira e no tempo certo, havendo clareza nos objetivos da militância: mobilizar para lutar, elevar o nível de organização e de consciência da base em geral, manter em dia um conjunto rico de atividades a serem desenvolvidas são tarefas de primeira ordem.

Desde ações simples e rotineiras como a promoção de reuniões abertas, confecção coletiva de materiais de propaganda como faixas estandartes, momentos para estimular a reflexão sobre os cenários políticos, suas pautas e com quais métodos defendê-las; até o estímulo à formação de blocos combativos de rua em uma categoria para lutas que envolvam a classe como um todo e a participação massiva em chamadas de tipo greve geral.

O importante é criar participação onde não existe. Depois fortalecê-la, procurando sempre definir objetivos e lugares de chegada para cada ação. Com o tempo – por exemplo, depois de mobilizar e ganhar corpo num sindicato – a agrupação pode pensar como estimular mais participação mobilizando demandas especificas. Por exemplo, se em um sindicato a tendência se consolidou e se mobiliza permanentemente, é preciso pensar que outras demandas devem ser mobilizadas: uma agrupação de trabalhadoras, de trabalhadores negros, entre os aposentados, etc. Para isso, formar grupo entre os diversos sujeitos que formam a base não homogênea de uma categoria, ou a população de um bairro. E armar um circuito de solidariedade que possa colcoar em contato com outros setores em luta o tempo todo.

Criar corpo e envolver mais militantes no dia-a-dia passa obviamente por disposição, participação nas agendas de uma categoria, em suas assembléias, mobilizações, mas também por atividades permanentes que a tendência elabora e projeta a partir de sua discussão interna.  Cines, rodas de conversa sobre temas específicos, construção de murais e faixas, mutirões diversos, concentração para atos, concentração pra panfletagem, colagem de lambes, confecção de camisetas, atividades culturais, saraus, slams, festas populares, com ou sem intenção de criar finanças, etc.

A criatividade na tática é tudo. A agrupação que analisa bem onde vive, as correlações de forças, que interpreta de forma lúcida seu ambiente e os interesses em jogo e quais são as principais demandas de sua categoria, pode fazer de qualquer atividade que gere integração um espaço para politizar companheiros e incorporar mais forças. Forças que podem ser colocadas em movimento, em ação, em um curtíssimo espaço de tempo. E quanto mais gente em movimento, mais espaço para cada companheiro ir assumindo tarefas, responsabilidades e construindo nesse processo coletivo novas relações orgânicas.

Como disse no início esse pequeno texto tem objetivo abrir debate, não esgotá-lo. Provocar o debate sobre como firmamos o trabalho de base tão necessário no atual cenário político. Ao debate!

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