Sobre a construção de subjetividades e o avanço ideológico da direita

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Nos dias 19 e 20 de outubro, o Conselho Federal da FAG (instância composta por delegações de base, como parte de nossa estrutura federalista), esteve reunido e, dentre outros assuntos, discutiu e afinou a caracterização da etapa histórica que vivemos. Abaixo segue a síntese do debate a respeito das subjetividades que permeiam a nossa sociedade.

Nas duas primeiras partes, discorremos um pouco sobre o que toca na cena da política institucional e se detém no marco daquilo que há algum tempo vimos caracterizando como Estado Policial de Ajuste. Por outro lado, há coisas que se passam além dessa cena, que se alimentam mas também dão base de sustentação para a mesma. Coisas que passam para além da materialidade, mas que se projetam e são por ela projetadas, sendo, por isso, parte constitutiva daquilo a que podemos chamar de realidade.

A etapa do capitalismo que vivemos representa, em uma boa medida, a vitória de uma auto concepção de sujeito individualista, que mimetiza e reproduz a lógica empresarial na condução geral de sua própria vida – o empreendedor de si mesmo. Como bem disse Foucault, o projeto neoliberal em si trata-se da ampliação de uma determinada racionalidade econômica para outros campos da vida das e dos sujeitos, racionalidade essa nascida da necessidade liberal de “como governar mais com menos”.

E é esse sujeito, com poucas referências na vivência coletiva, que enxerga todas e todos ao seu redor como potenciais competidoras(es), em suma, que tem sua subjetividade altamente alimentada pela ideia do “empreendedor de si mesmo”, que acaba produzindo as condições subjetivas (no sentido de diluir o conflito pelas várias saídas individuais, na contrapartida de uma única saída coletiva) que sustentam fenômenos como a “uberização” e “pejotização” da vida. Trata-se da reconfiguração das relações de trabalho, rompendo com a lógica de indústria e significando um avanço para a racionalidade empresarial.

Dentro dessa perspectiva, cabe-nos refletir sobre o fenômeno do fascismo. Não se trata de fazer uma transposição mecânica do fenômeno (conjuntural) ocorrido na Europa da primeira metade do século XX, como se vivêssemos a mesma coisa hoje no Brasil. Tampouco se trata da polarização rasa que alguns setores do campo progressista propõem, como se Bolsonaro fosse um governo fascista e tudo vinculado a ele também o fosse, restando, por oposição (antifascista) justamente esse campo oportunista que propõe o uso do termo. Nesse sentido, não se trata de caracterizar regime ou governo. Quando falamos em fascismo, usamos o termo como conceito analítico e temos em mira certa disputa, no campo das micropolíticas, com relação à produção de subjetividades responsáveis pelos modos de ver e se posicionar no mundo. Fascismo, como afirmam. Como modo extremo de autoritarismo, é elemento normal que estrutura modos de ver e entender o mundo com base em crenças e valores (hierarquia, desprezo à diferença, culto à personalidade e líder, etc). Lançar mão deste conceito serve para entender o fenômeno que, no momento em que vivemos, combina elementos de uma dominação carismática com a manipulação massiva de desejos e vontades populares a partir do uso dos big datas, vontades essas bastante particulares e em boa medida resultantes do fracasso do projeto de Estado de Bem Estar Social.

Somando-se esses fenômenos com a crise na democracia representativa burguesa, temos uma indignação de forte tom antissistema (ainda que não provoque o aumento no número de não votantes, o que é outro aspecto a se considerar). Nessa perspectiva, é interessante chamar a atenção para o fato de que a esquerda não vem sendo capaz de dar um horizonte de melhora nas condições de vida do povo pobre – pelo contrário, a posição é, quase sempre, de defesa de uma ordem que atenuou de um modo muito tímido as opressões e as dificuldades existentes desde sempre; por outro lado, a direita vem sabendo capitalizar em cima desse sentimento, principalmente a direita de caráter mais radical.

Por isso, com base na obra “Fascismo eterno” de Humberto Eco, podemos destacar alguns elementos que hoje correm pela subjetividade de determinados setores da população brasileira e também mundial, e que são condições determinantes para que fenômenos como o bolsonarismo ganhem a magnitude que possuem. Segundo o italiano, tratam-se de sentimentos permanentes nas sociedades e que estão além dos regimes italiano e alemão vividos nas décadas de 1920, 1930 e 1940. Sentimentos esses que são capazes de produzir subjetividades reacionárias, manobradas em favor de um projeto político econômico, e que tem por origem frustrações de ordem individual e social (o que justifica o sujeito alvo das mobilizações ser aquele oriundo das classes médias desiludidas). Além disso, o forte apelo ao nacionalismo, somado a posições xenófobas e à mobilização contra inimigos interno e externo. Essa mobilização contra o inimigo interno, somada ao apelo nacionalista, resulta no que Eco chamará de “elitismo popular”, no sentido em que “todos” os cidadãos pertenceriam a uma elite nacional; todavia, elites não podem existir sem plebeus. Há ainda a inspiração na hierarquia militar, que revela um desprezo à base subordinada, além daquilo que Eco classificará como “populismo qualitativo”, manobrado contra a instituição parlamentar. Por fim, destacamos da fala do italiano a necessidade que a subjetividade fascista tem da figura de um herói que esteja sempre disposto a morrer; esse herói em si não o faz, mas incita essa disposição a doar a vida em seus seguidores.

Retornando ao nosso quadro de análise, no esforço de enxergar quem seria a nossa elite nacional (nos termos de Eco), podemos nos perguntar: quem é o “cidadão de bem” no Brasil? É o sujeito que se sente deslegitimado/renegado pela ordem vigente que não lhe oferece todos os privilégios que imagina ser merecedor; bem como autorizado (em um esforço de resgatar uma imaginada ordem perdida) de dizer quem deve viver e quem deve morrer. Assim, a cidadania deixa de ser um direito e passa a ser um atributo que define quem deve viver e quem diz quem vive ou não. No caso brasileiro, é válido destacar que essa noção de cidadão de bem acaba por repaginar o racismo estrutural existente no país; não havendo mais a escravidão como régua para essa distinção, a nova medida encontrada passa pela manutenção do racismo conjugado com questões econômicas e morais, baseadas (ainda assim) em heranças do período escravocrata. Em outras palavras, a produção de um sujeito passível de ser morto acontece na sociedade e, no Brasil, ela bebe na nossa herança colonial. O elemento de violência, comum nas análises do fascismo na Europa, aqui tem outra característica, pois não se encontra em grupos sociais organizados sob manto ideológico fascista. No Brasil, a violência é prática comum e histórica das elites, cujo peso recai sobre os corpos do povo negro, agricultores pobres e povos originários, seja através das milícias na periferia, seja através dos jagunços no campo.

Por essa linha, podemos alinhar a produção do sujeito “cidadão de bem” também dentro dos conceitos de biopolítica (Foucault) e necropolítica (Mbembe). Podemos entender ambas as lógicas como aplicáveis a uma determinada razão de Estado, que define qual povo irá viver (no caso, o cidadão de bem) e qual povo será deixado morrer/morto (todo e toda que não estiver enquadrado como cidadão de bem). Mesmo a não-ação (casos de omissão deliberada diante de tragédias ambientais e ou assassinatos de indígenas) fazem parte do rol da necropolítica. Todavia, aqui propomos que essa lógica acontece e se legitima para além das razões de Estado, sendo um fenômeno resultante de uma série de opressões interseccionadas (de ordem racial, de gênero e econômica) que se constituem pelo tecido social e que ganham expressão pelo uso do aparelho de Estado. Assim, no Brasil, o resgate do nacionalismo proposto por setores da extrema direita são mecanismos de reprodução e legitimação que ampara e justifica a imposição de práticas ligadas ao que os autores conceituaram tanto como biopolítica como necropolítica, propondo inclusive uma reatualização do patriarcado e resgate de um modelo ideal de família. Assim, buscando combater esses elementos que permeiam nosso cotidiano e dão amparo ao estúpido das ações que toma um governo Bolsonaro, devemos ter em vista questionamentos como “qual a figura de mulher e de homem na nossa sociedade”, “como encaramos as nossas relações de sexualidade”? Como essas visões são gestadas pelo campo conservador? É preciso, ainda hoje, romper com o viés economicista que impera na maior parte do campo da esquerda e entender que essas construções são o econômico e são o político, porque constituem o sistema de dominação. Nesse sentido, ligando a produção de subjetividades do campo ideológico no social-cultural com os mecanismos de Estado na atual conjuntura, podemos dizer que os dispositivos de governo das condutas (governamentalidade) constituem modos intervenção na sociedade e podem estar alcançando novos patamares. A direita, ocupando postos chaves do Estado e ideologicamente entranhada nos modos de operar as instituições, radicaliza o uso desses mecanismos para o avanço ideológico em todos os níveis.

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